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terça-feira, 7 de agosto de 2012

Do desapego ao vento

O vampiro deitou-se na areia da praia. Já passava das três da manhã. Havia se alimentado há pouco – está saciado. Sua pele ganhara um rubor extraordinário, dada as circunstâncias. O corpo inteiro lhe aparenta aquecido, mesmo sendo apenas um estado mental, muito longe da realidade da sensação em si. O agitado lhe fornece a sinfonia necessária para a noite – como musica clássica pensa ele. Uma melodia agressiva, ao passo que desconcertante. Quase surreal. Experimenta ele a plenitude da solidão em harmonia com o aparente sossego de sua mente – outrora mergulhada no mais anuviado pensamento.
Recordações começam a se formar. Recordar é algo que um vampiro o faz a todo instante. Não são poucos os arrependimentos, nem mesmo poucas as exuberâncias de sua vivência. Seria como ser um mortal elevado ao cubo. Há espaço para todos os tipos de sentimentos, e ainda mais há de vir. Nenhuma recordação suplanta a outra. Cada qual vive no seu espaço, em sua infinita individualidade. Há de ser assim para todos.
Enquanto está ali deitado, não precisa de nada mais além do que já tem. Tem tudo o que precisa para várias vidas. Ainda assim falta-lhe algo. Algo o qual ainda lhe escapa por entre os dedos como água corrente. Procura o vampiro não pensar demais em tal coisa, deixa-se apenas levar junto da noite que se perderá logo, dando espaço a um novo dia – dia este que não faz parte de sua existência há muitos séculos.
Levanta-se. O sol já está para nascer. Já é possível ver as nuvens tornando-se avermelhadas. O céu está pronto para explodir em luz. Ao longe já pode ouvir a cidade acordando, entrando em seu ritmo habitual. Depois de tantos anos vivendo chegará a hora de experimentar algo novo. Algo que lhe fizesse sentir algo que lhe foi roubado desde o primeiro momento de sua transformação – medo. Com calma tira a camisa, depois a calça. Vai se livrando de cada peça como num ritual sagrado, como que concentrando suas forças para tornar este momento único, inigualável.
Finalmente nu. Lágrimas avermelhadas borram-lhe a face branca e extremamente lisa. Gotas desse sangue denso escorrem até seu peito. Nunca arriscara ficar sem proteção tão perto do nascer do sol. A visão lhe cansava torrentes de prazer e medo. O vampiro tremia. Tremia como nunca tremeu em vida, ou na morte.
Abriu os braços. Pensou em abraçar a natureza que o envolvia. O sol cada vez mais alto, cada vez mais perigoso o ameaçava vorazmente. Um caçador prestar a engolir sua presa numa única abocanhada. O vampiro explode em chamas. Seu corpo vai se desfazendo rapidamente, consumido pela fúria solar. Ainda assim não se movimenta. Um ultimo olhar para o horizonte claro. Um ultimo prazer antes da partida inevitável.
Cinzas. O vento se encarrega de espalhar a evidencia crucial de um ser. Apenas a roupa elegante ali jaz. Toda a praia tornou-se seu túmulo. Cinzas, cinzas ao vento. 
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