O vampiro deitou-se
na areia da praia. Já passava das três da manhã. Havia se alimentado há pouco –
está saciado. Sua pele ganhara um rubor extraordinário, dada as circunstâncias.
O corpo inteiro lhe aparenta aquecido, mesmo sendo apenas um estado mental,
muito longe da realidade da sensação em si. O agitado lhe fornece a sinfonia
necessária para a noite – como musica clássica pensa ele. Uma melodia
agressiva, ao passo que desconcertante. Quase surreal. Experimenta ele a
plenitude da solidão em harmonia com o aparente sossego de sua mente – outrora
mergulhada no mais anuviado pensamento.
Recordações começam a
se formar. Recordar é algo que um vampiro o faz a todo instante. Não são poucos
os arrependimentos, nem mesmo poucas as exuberâncias de sua vivência. Seria
como ser um mortal elevado ao cubo. Há espaço para todos os tipos de
sentimentos, e ainda mais há de vir. Nenhuma recordação suplanta a outra. Cada
qual vive no seu espaço, em sua infinita individualidade. Há de ser assim para
todos.
Enquanto está ali
deitado, não precisa de nada mais além do que já tem. Tem tudo o que precisa
para várias vidas. Ainda assim falta-lhe algo. Algo o qual ainda lhe escapa por
entre os dedos como água corrente. Procura o vampiro não pensar demais em tal
coisa, deixa-se apenas levar junto da noite que se perderá logo, dando espaço a
um novo dia – dia este que não faz parte de sua existência há muitos séculos.
Levanta-se. O sol já
está para nascer. Já é possível ver as nuvens tornando-se avermelhadas. O céu
está pronto para explodir em luz. Ao longe já pode ouvir a cidade acordando,
entrando em seu ritmo habitual. Depois de tantos anos vivendo chegará a hora de
experimentar algo novo. Algo que lhe fizesse sentir algo que lhe foi roubado
desde o primeiro momento de sua transformação – medo. Com calma tira a camisa,
depois a calça. Vai se livrando de cada peça como num ritual sagrado, como que
concentrando suas forças para tornar este momento único, inigualável.
Finalmente nu.
Lágrimas avermelhadas borram-lhe a face branca e extremamente lisa. Gotas desse
sangue denso escorrem até seu peito. Nunca arriscara ficar sem proteção tão
perto do nascer do sol. A visão lhe cansava torrentes de prazer e medo. O
vampiro tremia. Tremia como nunca tremeu em vida, ou na morte.
Abriu os braços.
Pensou em abraçar a natureza que o envolvia. O sol cada vez mais alto, cada vez
mais perigoso o ameaçava vorazmente. Um caçador prestar a engolir sua presa
numa única abocanhada. O vampiro explode em chamas. Seu corpo vai se desfazendo
rapidamente, consumido pela fúria solar. Ainda assim não se movimenta. Um
ultimo olhar para o horizonte claro. Um ultimo prazer antes da partida
inevitável.
Cinzas. O vento se
encarrega de espalhar a evidencia crucial de um ser. Apenas a roupa elegante
ali jaz. Toda a praia tornou-se seu túmulo. Cinzas, cinzas ao vento.
Adorei Xande.
ResponderExcluirja escrevi sobre o "entregar-se ao sol" tbm um tempo atras.
Muito bom, parabéns e sucesso com o blog.
Muito bom
ResponderExcluirAdoreiiii!!
ResponderExcluirMuito legal mano parabéns.
ResponderExcluirAss: Ocaminhodanoite.blogspot.com