Esta é primeira parte da série Vampiro, a saga. Está história será contada através de contos curtos, postados semanalmente.
Vampiro, a saga - Parte I
Hoje parei pra pensar quantas mil
histórias sobre vampiros circulam por aí. São tantas a se perder as contas.
Parece que o assunto é de interesse geral – essa ânsia pelo sobrenatural, pelo
desconhecido, não é uma novidade afinal. Peguei-me lendo algumas destas, mesmo
que sem muito interesse, tentando captar alguma verdade – muito pouco se
aproveita. De fato, acredito em vampiros. Não por ser fadado a acreditar, ou
por estar perdendo a sanidade, mas sim pelo fato de que sou um – a verdade
inevitável. Arregalou os olhos? Ou ainda pensou “aí vem mais um maluco”. Pouco
me importa. Estou aqui apenas respondendo a um chamado insensato de meu ego.
Estou somente preenchendo, com esta futilidade, o tempo que há muito deixei de
perceber.
Veja bem. Quando se tem tanto tempo
disponível, contá-lo realmente torna-se algo desagradável e inteiramente
obsoleto. Nada bom pode surgir disso. A loucura viria inevitavelmente. Ainda
assim é um aprendizado demorado e custa caro não tentar compreender.
Inicialmente você não passa de um menino
conhecendo o mundo. Pela primeira vez por conta própria. Nesse período são
muitos os erros, os esbarros e tropeços. Não há nada. Repito. Nada maior e mais
maravilho do que experimentar a liberdade – mesmo que esta seja apenas uma
máscara mundana para a intrínseca realidade. Aquela na qual se conhece a
mentira por trás da prática de liberdade.
Enfim, um garoto. Um garoto
experimentando o sexo pela primeira vez. Isso sim trás a tona uma boa
comparação. Mas no caso dos vampiros esse êxtase se estende a toda experiência
inicialmente vivida – e perde-se facilmente quando repetida. A não ser o gosto
pelo sangue. Esse por mais que seja provado, nunca é o suficiente. Mesmo os
mais velhos dentre nós não abandonam o hábito, ainda que pouco precisem. Ter o
sangue em si, abrindo caminho pelo corpo amplamente receptivo. Jorrando da veia
pulsante enquanto o uníssono de dois corações torna-se cada vez mais
perceptível e atraente. Ou quando este vai-se indo – um misto de dor pela perda
do momento, com o exacerbado efeito de se estar saciado. Sentir a vida de
outrem se esvaindo aos poucos, num sopro nem curto, nem longo. Um palpitar
maravilhoso. O puro poder e controle sobre o alimento. Tudo isso se soma para
criar a atmosfera atraente na qual vivo.
Matar. Matar é meu real prazer. No inicio
nada mais que uma necessidade, hoje uma fonte de prazer infinito. Nunca abandono
uma vítima viva – desperdício. Há milhões no mundo e preciso de minha cota.
Tenho minhas preferências, mas um cardápio variado é a chave do negócio. Não me
contento com um assassino, ladrão ou qualquer outro errante. Não busco perdão,
não acredito no divino. Sou o que sou e faço jus ao meu nome. Não poderia me
esconder por trás de uma infinidade de sentimentos clichês – não preciso disso.
Como disse, o segredo para viver a eternidade é fazer o necessário para
manter-se vivo. Essa é uma das artimanhas que mantém sobriamente ativo há quase
um século.
Um século não é muito. Claro que não vocês
devem pensar. A diferença entre nós reside nos muitos séculos os quais ainda
verei passar. Enquanto vocês todos já estarão mortos – muitos mortos por minhas
mãos. Ou melhor, por minhas presas. Sendo assim faço uso de uma bela gargalhada
no momento. Até fiz uma pequena pausa na narrativa para recuperar-me da
insanidade deste pensamento. Tornar-me vampiro foi a melhor coisa que me
poderia ter acontecido.
Hoje mesmo ao caçar a primeira refeição
não me contive. O homem andava por aquelas ruelas com um sorriso estampado no
rosto avermelhado e desbotado. Firme, cheio de equilíbrio e confiança, como se
nada o pudesse atingir. Sabia o motivo da felicidade, já estava de olho nele há
alguns dias, mas precisei esperar a hora certa para aproveitar ao máximo a
caçada. O bolo de dinheiro que carregava consigo não fazia a menor diferença,
tenho fortuna o suficiente por hora. Sua soberania infundada me corroeu e as
gargalhadas brotaram instantaneamente. Quando me viu o homem petrificou. Aquela
estátua macia e cheia de sangue deixou a confiança morrer antes dele.
Não tive pressa. Aproximei-me devagar,
não por pudor, mas por pura diversão. Ele pensou em correr, mas já estava
atraído demais para isso. Minha pele extremamente branca atiçou sua curiosidade
e logo depois o pavor paralisante. Cheguei tão perto a ponto de transpassar-lhe
se assim o quisesse com apenas um passo. Acariciei aquele cabelo macio, longo e
tão negro quanto aquela noite sem estrelas. Deixei minhas mãos passearem pelo
peito semi exposto, enquanto atirava meu corpo para mais perto do dele. Não
ouve mais tempo, nem lugar, nem pensamentos. Beijei-lhe o pescoço cravando
minhas presas em seguida. O sangue jorrou imediatamente me possuindo por
completo. Cada fibra de meu corpo gritava escandalosamente em parceria com a
ardente chama que me preenchia. Suguei sua vida em menos de um minuto.
Abandonei o corpo ali mesmo, sem
precauções. Nos tempos atuais acreditar em vampiro seria como pedir entrada em
um hospício. Não costumo curar os furos que criei. Apenas mordo e crio uma
grande ferida, provavelmente como o seria num ataque por um cão ou qualquer
coisa parecida. Não tenho desejo algum em esconder ou dilacerar o corpo – somente
uma mascarada já é mais que suficiente.
Não tema. Rara é a chance de vocês se
depararem comigo. Mas se acontecer não terão tempo sequer de lembrar o que
leram aqui. Talvez me achem cruel depois dessa leitura. Ou mesmo impiedoso.
Afirmo não me enquadrar em nenhuma das definições, vocês apenas não têm como
entender um vampiro. Escreverei mais, porém não agora. Narrarei em breve
algumas de minhas andanças mundo a fora. Se lhes interessar voltem. Isso de
fato pouco me importará – continuarei vivendo.
Chamo-me Augusto T. e voltarei em breve.
Uma nova estória se aproxima cheia de mistérios! Uma breve introdução pra nos deixar enlouquecidos! To morrendo de curiosidade!!!
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